Where The Wild Things Are – EUA, 2009 – Direção: Spike Jonze
O que pode ser mais fascinante do que a imaginação de uma criança? Essa pode facilmente ter sido a indagação que levou Spike Jonze a adaptar para o cinema o livro de Maurice Sendak, de título homônimo ao do filme. A imaginação de uma criança se enquadra no que parece ser uma área de particular interesse do diretor, a mente humana. Nos seus dois únicos, mas muito significantes, filmes anteriores, encontramos essa característica em comum que é explorada de forma brilhante. Até então, poderia se dizer que isso ocorria apenas por influência do roteirista que escreveu os roteiros de seus dois primeiros longas, Charlie Kaufman, mas no caso de Onde Vivem Os Monstros o roteiro foi escrito pelo próprio Spike e por David Eggers (Away We Go), sem a colaboração de Kaufman. Ainda assim, o filme guarda bastantes similaridades com suas obras anteriores, e nem é preciso dizer que a qualidade é uma delas, provando que considerar Jonze um dos únicos auteurs do cinema contemporâneo não é nenhum absurdo.
Em Onde Vivem os Monstros nos é apresentado Max (Max Records) – a mim foi apresentado não só o personagem, como também o ator – um garoto de aproximadamente 10 anos de idade que mora com a sua mãe e irmã, mas possui todo um mundo particular dentro e fora de casa, onde ele constrói um “iglu”, inclusive. De qualquer forma, o diretor faz questão de esclarecer que ele não é uma criança reclusa ou antissocial, mostrando-o brincando com seus colegas de escola em determinada passagem, ainda que haja um trecho em que converse com uma cerca, ele não é nada mais que uma criança inventiva. Apesar de ser adorável, Max se enfurece fortmente quando chateado, numa dessas crises de fúria ele apenas vandaliza o quarto da irmã por seus amigos terem destruído seu iglu e ela não ter feito nada, na outra, chateado com a mãe (Catherine Keener), e após te-la machucado, ele foge de casa, em sua peculiar fantasia de lobo, e acaba por encontrar a terra onde vivem os seus próprios monstros.
Quando entramos nessa terra é como se começasse outro filme, agora sim entramos de verdade no mundo de Max, que acaba sendo um refúgio para o garoto. É um mundo encantador, recriado de modo tecnicamente perfeito, os cenários são extremamente realistas, apesar de fazerem parte da imaginação de uma criança e de, possivelmente, ter sido usado em sua confecção recursos digitais. Assim como acontece com os monstros, que não são tão assustadores quanto poderíamos supor, mas, na verdade, se assemelham ao próprio garoto e à percepção que ele tem das pessoas à sua volta. A primeira vista, os monstros podem parecer bonecos como os da TV Colosso, mas logo perdemos essa impressão quando temos a chance de observá-los mais de perto e notar o quão real são suas expressões, que foram animadas digitalmente, mas também têm sua força potencializada pelas interpretações vocais de atores como James Gandolfini, Paul Dano e Forest Whitaker. Os monstros chegam quase a serem humanos e, podemos dizer, possuem os mesmos anseios e temores que o pequeno Max.
É óbvio que a fotografia que registra todo aquele ambiente, que não é muito mais que um bosque, em tons tão instigantes e, por vezes, tão belos que chegam a emocionar, assim como toda a louvável parte técnica restante, que já foi elogiada, auxilia-nos a adentrar naquele mundo e nos envolver com a jornada do garoto com seus Monstros. Mas verdadeiramente, o que nos cativa e encanta no filme é o próprio garoto, que é um personagem, que embora infantil, é extremamente bem construído e interpretado de forma bastante genuína pelo jovem Records, e seus Montros, por guardarem tantas nuances da sua personalidade, são personagens tão verdadeiros e cativantes como ele, o que acaba deixando fácil a tarefa imergir, sem restrições, naquele mundo que é pura fantasia.
Durante pouco menos de duas horas, Jonze nos convida a ser criança de novo, não só por contar a jornada de um garoto que aprende um pouco mais sobre si nessa pequena fábula, mas por nos apresentar um mundo e personagens que encantam de modo tão verdadeiro, que, por um momento, só podemos imaginar que somos crianças outra vez. Em tempos de Avatar, o diretor demonstra que nem são precisos tantos milhões, nem tanta tecnologia, ou mais de duas dimensões para o espectador sentir-se absorvido por uma trama e totalmente imerso em um cenário alheio. A Pandora de Cameron que me desculpe, mas eu quero habitar, pelo menos por algum tempo, onde vivem os monstros.
Matheus, prazer conhecer seu blog!
Quanto ao filme, estou apaixonado!
“A primeira vista, os monstros podem parecer bonecos como os da TV Colosso…” Hahahahahahahahahaha!
Yeah, acho impossível alguém não gostar desse filme. Tecnicamente brilhante, uma trilha sonora das melhores do ano e esse menino Max Records, uma revelação.
Tudo bem que eu não considero uma obra-prima digna de uma nota 10, mas é um filme sensacional.
Não sei exatamente porque o Jonze demorou tanto para lançar outro longa, afinal ele vem se confirmando como um dos melhores diretores da atualidade. Gostei muito de todos os seus filmes e espero que o próximo não demore muito.
Disse tudo que eu queria, com a diferença que gostei um pouco menos que você. É mesmo lindo, me emocionei de verdade com algumas cenas e a maneira como Spike captou a imaginação de uma criança foi de uma sensibilidade tremenda. Quem não se deixou levar por aquilo, merece um soco por ser tão insensível. Acho que foi o filme que a direção do Spike mas apareceu. Não que nos outros não foi possível notar suas qualidades, mas há presença mais forte do roteiro, digamos. Agora imagine a cena da guerra de lama seca do roteiro. “monstros jogam lama um nos outros”. E olha só o que Spike fez!
Trilha sonora e canções ótimas – que é certo de não serem premiadas ¬¬.
[]s! E ótimo texto, rapá!
Cleber, sinta-se em casa =)
Felipe, sabia que alguém ia comentar sobre a parte da TV Colosso, não sei como não adivinhei que seria você haha. Acho o filme mais que tecnicamente brilhante, o que me cativou foi mesmo a história e os personagens, e tu já deu 10 pra coisa muito pior, humpf!
Vinícius, também não entendo, com seus dois primeiros filmes ele já tinha se tornado um dos meus diretores favoritos, agora com Onde Vivem Os Monstros ele tá chegando no status ‘Paul Thomas Anderson’ de qualidade.
Jeff, concordo com você sobre a parte do soco, haha. Eu acho que a direção do Spike aparece bastante nos outros filmes também, mas nessa sobressai em vários momentos mesmo. A trilha é sensacional, pena que eu não acho a parte do Carter Burwell, adoro a trilha de Malkovich, que é dele. Agora, sobre prêmios, eu acho um absurdo o filme não levar nenhum, e é o que parece que vai acontecer, mas já to conformado. E ah, thanks
Que lindo, Matt. Depois de ver na TV milhões de comerciais de bastidores de Onde Vivem Os Monstros, perdi o interesse que tinha, mas depois de ler isso, vou assim que estrear por aqui.
Parabéns pelo texto!
Abração!
Um dos melhores reviews que vi do filme de Jonze, muito bom. Depois dá uma olhada lá no meu blog, to começando: http://www.umblogdecinema.blogspot.com. Abs,
Bom, eu gostei muito do longa – sem dúvida é o melhor filme do Spike Jonze. Nostálgico, belo, bem atuado, criativo, bem dirigido… Enfim, não me envolvi tanto como você, mas é legal saber que este filme está sendo bem recebido pelos cinéfilos (imagina só ele no lugar de The Blind Side no Oscar, que máximo ia ser!).
Discordo apenas quando faz analogia entre ele e Avatar, pois o filme de Cameron é muito mais envolvente e criativo que este, na minha opinião. Em termos de roteiro, inclusive. Mas esta é minha opinião, claro.
Ah, eu quero mesmo é conhecer Pandora!
para mim o filme parese um sonho bem espresado por max que faz realidade e fixisao comviverem
eu sou um biscate